O Lula não virou a eleição convencendo o eleitor do Flávio Bolsonaro. Virou porque, no segundo turno, quem não tinha escolhido nenhum dos dois resolveu escolher, e a maioria escolheu Lula. É o que mostra o Contraponto a partir de uma urna de Itabirito, no interior de Minas Gerais, e depois dos números do país inteiro, com dados do TSE.
Uma urna, os mesmos eleitores
A seção 96 (zona 133) de Itabirito fica na Escola Estadual Engenheiro Queiroz Júnior. Tem 368 eleitores aptos nos dois turnos. No primeiro turno, em 4 de outubro de 2026, o boletim de urna deu Flávio Bolsonaro 119, Lula 111, Augusto Cury 8, Renan Santos 8, Ronaldo Caiado 7, Romeu Zema 2, outros 2, brancos 14 e nulos 18. Flávio, oito votos na frente.
No segundo turno, em 25 de outubro, a mesma urna deu Lula 152, Flávio 132, brancos 4 e nulos 10. Lula, vinte votos na frente.
Seria fácil achar que o eleitor do Flávio mudou de ideia. Mas ali o Flávio não perdeu um voto sequer: ganhou 13 e perdeu do mesmo jeito. Lula ganhou 41.
Não foi a terceira via que decidiu
O suspeito óbvio é a terceira via. Zema, Caiado e Cury apoiaram o Flávio no segundo turno. Nessa urna, 27 pessoas tinham votado neles ou em outros candidatos. Mas o Flávio só ganhou 13. Mesmo que todos viessem dali, sobram 14: mais da metade da terceira via não foi para ele.
Os votos do Lula vieram de um grupo maior. No primeiro turno, 138 dos 368 eleitores da seção não tinham escolhido nenhum dos dois: 27 votaram na terceira via, 32 anularam ou votaram em branco e 79 ficaram em casa. No segundo turno, 54 deles entraram no jogo. Lula ficou com 41. O Flávio manteve os seus 119. A virada veio de quem ainda não tinha escolhido.

A cidade e o país fizeram o mesmo
Os 37 locais de votação de Itabirito andaram todos na direção do Lula. Entre as 211 cidades que viraram para o Lula no segundo turno, nenhuma virou tanto quanto Itabirito, como registrou a Folha de S.Paulo em 26 de outubro.
O motivo: em Itabirito, que tem 45 mil eleitores, 37% não tinham escolhido nem Lula nem Flávio no primeiro turno (Lula teve 30% e Flávio, 33%). No Brasil, esse grupo era de 31%. Das 16.798 pessoas de Itabirito nessa situação, 4.559 foram para o Lula e 1.385 para o Flávio. Três de cada quatro foram para o Lula. Outras 10.854 continuaram de fora.

A virada foi maior onde menos gente tem diploma. O gráfico do vídeo cruza, para cada local de votação, os pontos que o Lula ganhou entre os turnos com a porcentagem de eleitores com diploma: menos diploma, mais virada.
No Brasil, o resultado foi o mesmo. Dos 159 milhões de eleitores, quase um em cada três (48,7 milhões) não tinha escolhido nenhum dos dois no primeiro turno. No segundo, 14 milhões deles entraram no jogo: 10,3 milhões foram para o Lula e 3,7 milhões para o Flávio. Quase três de cada quatro. O cálculo é do Contraponto, com o saldo entre os turnos nas 498 mil seções do TSE.

E a terceira via também se dividiu no país inteiro. Pela estimativa do Contraponto, de cada 100 eleitores de Zema, Caiado, Cury, Renan e outros (9,3 milhões de votos no primeiro turno), 47 foram para o Lula, 41 para o Flávio e 12 votaram branco, nulo ou não votaram. Entre os eleitores de Cury, que apoiou o Flávio, foram 57 para o Lula e 29 para o Flávio.

Não foi o relógio
Flávio disse que não reconhece o resultado e que vai pedir a anulação da eleição, segundo a Gazeta do Povo. Mas a vantagem do Lula no segundo turno foi de 4,43 milhões de votos. Quem votou depois das 17h foram cerca de 35 mil pessoas: menos de 1% da diferença. E a maioria já estava na fila, e quem está na fila às 17h vota, pelo artigo 153 do Código Eleitoral.
No fim, Lula teve 51,8% e Flávio, 48,2%. Manda esse texto para quem ainda não acredita nesse resultado.