O Banco Central manteve a Selic em 13,75% e disse que é hora de ter cautela. Para o professor Márcio Ladeira, não há motivo para isso: o Brasil não está em guerra nem diante de uma crise econômica, e já tem o maior juro real do mundo. A "cautela", diz ele, mostra que o Banco Central é submisso ao mercado financeiro, que não gostou da eleição do presidente Lula.
O que disse o Copom
O comunicado do Copom de 4 de novembro de 2026, que aparece na tela, tem o título "Copom mantém a taxa Selic em 13,75% a.a." e fala duas vezes em cautela: "reforçando a postura de cautela em cenário de maior incerteza" e "demandando serenidade e cautela na sua condução".
"Cautela em quê, Banco Central?", pergunta Márcio. "Nós estamos em guerra? Nós temos alguma crise econômica vindo por aí?"
O maior juro real do mundo
O juro real é a taxa de juros menos a inflação esperada. Num levantamento com 40 países, o Brasil aparece em primeiro lugar, com 9,49% ao ano. Depois vêm Turquia (7,77%), Argentina (6,80%) e Rússia (6,57%). A média dos 40 países é de 1,28%.

O déficit é quase todo juros
O problema sério do Brasil, segundo Márcio, é o aumento grande do déficit nominal causado pela taxa de juros. Os números na tela são das Estatísticas Fiscais do Banco Central, nos 12 meses até setembro de 2026: o déficit nominal foi de R$ 1,275 trilhão. Os juros respondem por 94% desse valor. O déficit primário, que é a diferença entre o que o governo arrecada e o que gasta sem contar os juros, foi de R$ 70 bilhões.

Os juros da dívida pública, em 12 meses até setembro de cada ano, foram de R$ 700 bilhões em 2023, R$ 820 bilhões em 2024, R$ 985 bilhões em 2025 e R$ 1,21 trilhão em 2026. São R$ 505 bilhões a mais de setembro de 2023 a setembro de 2026, ou R$ 3,3 bilhões por dia.

"É inadmissível", diz Márcio, ter esse aumento na despesa financeira do serviço da dívida e o pessoal querer colocar a culpa no gasto primário: saúde, educação, Bolsa Família, investimento, Previdência e ciência. Os juros, de R$ 1,2 trilhão, ficam fora do limite do arcabouço fiscal, que pela Lei Complementar 200/2023 vale para o gasto primário. "Quem não entende de orçamento e não entende de economia cai nessa lorota."
André Lara Resende e o futuro de Galípolo
Márcio diz que André Lara Resende, um dos criadores do Plano Real, estava "completamente certo": o Banco Central está vendido ao rentismo. Na tela aparece o ensaio "Eu Acuso: uma proposta para eliminar os juros absurdos", publicado no Substack do André em 25/9/2026, com o trecho "O cerne do problema fiscal está no serviço da dívida. Todo o resto é secundário." Quem entendeu o artigo, diz Márcio, sabe qual é o problema do Brasil em relação à taxa de juros.
Por isso, ele defende que o presidente Lula vá à mídia e comece a dizer que Gabriel Galípolo não vai mais ser presidente do Banco Central no próximo governo. Pela linha do tempo do vídeo, o mandato de Galípolo vai até 31/12/2028 (Lei Complementar 179/2021 e Senado), ou seja, entra no quarto mandato de Lula.
Para Márcio, a decisão de manter a Selic em 13,75% deixou claro que o Banco Central é submisso ao mercado financeiro e ao rentismo no Brasil. "Está na hora de mudar."