Selic em 13,75%: Márcio Ladeira questiona a "cautela" do Banco Central

O Copom manteve a Selic em 13,75%. O Brasil tem o maior juro real entre 40 países e os juros da dívida subiram R$ 505 bi de 2023 a 2026.

O Banco Central manteve a Selic em 13,75% e disse que é hora de ter cautela. Para o professor Márcio Ladeira, não há motivo para isso: o Brasil não está em guerra nem diante de uma crise econômica, e já tem o maior juro real do mundo. A "cautela", diz ele, mostra que o Banco Central é submisso ao mercado financeiro, que não gostou da eleição do presidente Lula.

O que disse o Copom

O comunicado do Copom de 4 de novembro de 2026, que aparece na tela, tem o título "Copom mantém a taxa Selic em 13,75% a.a." e fala duas vezes em cautela: "reforçando a postura de cautela em cenário de maior incerteza" e "demandando serenidade e cautela na sua condução".

"Cautela em quê, Banco Central?", pergunta Márcio. "Nós estamos em guerra? Nós temos alguma crise econômica vindo por aí?"

O maior juro real do mundo

O juro real é a taxa de juros menos a inflação esperada. Num levantamento com 40 países, o Brasil aparece em primeiro lugar, com 9,49% ao ano. Depois vêm Turquia (7,77%), Argentina (6,80%) e Rússia (6,57%). A média dos 40 países é de 1,28%.

Ranking de juro real (juros menos a inflação esperada, % ao ano): Brasil em 1º com 9,49%, Turquia 7,77%, Argentina 6,80%, Rússia 6,57%; média de 40 países, 1,28%. Fonte: MoneYou e Lev Intelligence, 40 países, juro real ex ante (4/11/2026)
Ranking de juro real (juros menos a inflação esperada, % ao ano): Brasil em 1º com 9,49%, Turquia 7,77%, Argentina 6,80%, Rússia 6,57%; média de 40 países, 1,28%. Fonte: MoneYou e Lev Intelligence, 40 países, juro real ex ante (4/11/2026)

O déficit é quase todo juros

O problema sério do Brasil, segundo Márcio, é o aumento grande do déficit nominal causado pela taxa de juros. Os números na tela são das Estatísticas Fiscais do Banco Central, nos 12 meses até setembro de 2026: o déficit nominal foi de R$ 1,275 trilhão. Os juros respondem por 94% desse valor. O déficit primário, que é a diferença entre o que o governo arrecada e o que gasta sem contar os juros, foi de R$ 70 bilhões.

Déficit nominal em 12 meses: R$ 1,275 trilhão, dos quais 94% são juros; o déficit primário foi de R$ 70 bilhões. Fonte: Banco Central, Estatísticas Fiscais (12 meses até set/2026)
Déficit nominal em 12 meses: R$ 1,275 trilhão, dos quais 94% são juros; o déficit primário foi de R$ 70 bilhões. Fonte: Banco Central, Estatísticas Fiscais (12 meses até set/2026)

Os juros da dívida pública, em 12 meses até setembro de cada ano, foram de R$ 700 bilhões em 2023, R$ 820 bilhões em 2024, R$ 985 bilhões em 2025 e R$ 1,21 trilhão em 2026. São R$ 505 bilhões a mais de setembro de 2023 a setembro de 2026, ou R$ 3,3 bilhões por dia.

Juros da dívida pública em 12 meses até setembro: R$ 700 bi (2023), R$ 820 bi (2024), R$ 985 bi (2025) e R$ 1,21 tri (2026), alta de R$ 505 bi; R$ 3,3 bi por dia. Fonte: Banco Central, Estatísticas Fiscais, juros nominais do setor público
Juros da dívida pública em 12 meses até setembro: R$ 700 bi (2023), R$ 820 bi (2024), R$ 985 bi (2025) e R$ 1,21 tri (2026), alta de R$ 505 bi; R$ 3,3 bi por dia. Fonte: Banco Central, Estatísticas Fiscais, juros nominais do setor público

"É inadmissível", diz Márcio, ter esse aumento na despesa financeira do serviço da dívida e o pessoal querer colocar a culpa no gasto primário: saúde, educação, Bolsa Família, investimento, Previdência e ciência. Os juros, de R$ 1,2 trilhão, ficam fora do limite do arcabouço fiscal, que pela Lei Complementar 200/2023 vale para o gasto primário. "Quem não entende de orçamento e não entende de economia cai nessa lorota."

André Lara Resende e o futuro de Galípolo

Márcio diz que André Lara Resende, um dos criadores do Plano Real, estava "completamente certo": o Banco Central está vendido ao rentismo. Na tela aparece o ensaio "Eu Acuso: uma proposta para eliminar os juros absurdos", publicado no Substack do André em 25/9/2026, com o trecho "O cerne do problema fiscal está no serviço da dívida. Todo o resto é secundário." Quem entendeu o artigo, diz Márcio, sabe qual é o problema do Brasil em relação à taxa de juros.

Por isso, ele defende que o presidente Lula vá à mídia e comece a dizer que Gabriel Galípolo não vai mais ser presidente do Banco Central no próximo governo. Pela linha do tempo do vídeo, o mandato de Galípolo vai até 31/12/2028 (Lei Complementar 179/2021 e Senado), ou seja, entra no quarto mandato de Lula.

Para Márcio, a decisão de manter a Selic em 13,75% deixou claro que o Banco Central é submisso ao mercado financeiro e ao rentismo no Brasil. "Está na hora de mudar."

Transcrição do vídeo

Galera, o Banco Central manteve a taxa de juros, a Selic, em 13,75% e falaram que é hora de ter cautela. Cautela em quê, Banco Central? Cautela porque você está submisso ao mercado financeiro que não gostou da eleição do presidente Lula? Cautela em quê?

Por que o Brasil tem que ter cautela para ter a maior taxa de juros do mundo? Nós estamos em guerra? Nós temos alguma crise econômica vindo por aí? Na verdade, a gente tem um problema muito sério, que é um aumento grande do déficit nominal por causa da taxa de juros que você, Banco Central, é submisso ao mercado financeiro.

Então, está na hora, sabe do quê? Do presidente Lula ir para a mídia e já começar a falar que Gabriel Galípolo não vai ser mais presidente do Banco Central no próximo governo dele. E André Lara Resende estava completamente certo. O Banco Central está vendido ao rentismo.

Todo mundo que entendeu o artigo de André Lara Resende sabe muito bem qual é o problema do Brasil em relação à taxa de juros. É inadmissível o Brasil ter 500 bilhões de reais de aumento em despesa financeira do serviço da dívida em dois anos e o pessoal querer colocar a culpa em corte de gastos primários. Quem não entende de orçamento e não entende de economia cai nessa lorota. Para mim está mais do que claro.

O Banco Central, com essa posição de manter a taxa Selic em 13,75%, mostrou que é submisso ao mercado financeiro e ao rentismo no Brasil. Está na hora de mudar.

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