As pesquisas não erraram em quem as pessoas iam votar. Erraram em quem ia votar. No segundo turno, quase 3 milhões de eleitores a mais foram às urnas, e eram justamente os mais jovens, mais pobres e mais a favor do Lula: o grupo que os modelos dos institutos achavam que ia ficar em casa.
16 pesquisas, todas erradas para o mesmo lado
Na véspera do segundo turno, o placar se repetia na TV: Flávio Bolsonaro com 50,5%, 50,8%, 51%. O Datafolha de 23 e 24 de outubro, com 4.050 entrevistas, deu Flávio 51 e Lula 49 nos votos válidos. No domingo, 25, deu Lula, com 51,79%, segundo o TSE.
Das 16 pesquisas divulgadas de 22 a 24 de outubro, 14 davam o Flávio na frente. E todas deram ao Lula menos do que ele teve nas urnas, segundo levantamento do Congresso em Foco com dados do TSE.

A distância variou de 1,19 ponto (Vox Brasil) a 3,79 pontos (Gerp, Real Time Big Data e Alfa Inteligência). Datafolha, Quaest e PoderData/Aya erraram por 2,79. Todas erraram pro mesmo lado.
O que a margem de erro mede, e o que ela não mede
O Brasil tem 158,7 milhões de eleitores. O Datafolha ouviu 4 mil. O Datafolha procura as pessoas na rua, a Quaest na porta de casa, a AtlasIntel pela internet e a Nexus por telefone.
Quatro mil parece pouco, mas, com gente bem escolhida, a pesquisa já fica a uns dois pontos do que o país inteiro responderia. Essa folga é a margem de erro. O Datafolha declara ±2 pontos com 4.050 entrevistas. Então o 49 do Lula era uma faixa de 47 a 51, que encostava na faixa do Flávio, de 49 a 53. Era empate técnico. Só que o resultado, 51,79 a 48,21, ficou fora das duas faixas.

A margem só mede o erro de ouvir uma parte do país. Não conta quem não para na rua, quem não atende o telefone, quem não quer responder. Um estudo publicado no Journal of the American Statistical Association em 2018 (Shirani-Mehr, Rothschild, Goel e Gelman), com 4.221 pesquisas de 608 eleições nos Estados Unidos, de 1998 a 2014, viu que o erro real foi, em média, o dobro da margem: ±4 na prática para ±2 declarado. E pesquisas da mesma eleição costumavam errar juntas.
O eleitor provável que não era provável
Para compensar quem fica de fora, os institutos ajustam a amostra. Pelo TSE, as mulheres são 52,8% do eleitorado. Se numa pesquisa elas aparecem como 60%, a resposta de cada mulher passa a valer um pouco menos (peso 0,88) e a de cada homem um pouco mais (peso 1,18). O mesmo vale para idade, escolaridade, renda e região.
Só que o TSE sabe quem pode votar, não quem vai votar. Então os institutos apostam. A Quaest dá mais peso a quem tem perfil de quem costuma votar, com base no histórico de comparecimento de 2010 a 2022. É o chamado eleitor provável.
Isso costumava funcionar: no segundo turno, quase sempre vota menos gente. De 2002 a 2018, foi sempre assim; em 2022, foram 0,6 milhão a mais. Desta vez, foram 2,96 milhões a mais.

Depois, o diretor da Quaest, Felipe Nunes, escreveu no blog Pulso, do O Globo, em 28 de outubro: "Essa onda sem precedentes acabou colocando em xeque os pressupostos do nosso modelo de eleitores prováveis". Quem eram: mais jovens, mais pobres e mais a favor do Lula.
Indecisos, brancos e nulos
Não foi só quem ficou em casa no primeiro turno. A diretora da Futura, Paula Orrico, diz que a reta final da virada veio também de indecisos e de quem tinha anulado ou votado em branco. Na Quaest da véspera, os votos totais eram Flávio 46, Lula 45, 8% de brancos e nulos e 1% de indecisos. Nos votos válidos, viravam 51 a 49. Ou seja, 9% ficavam fora da conta.

Só duas das 16, a Vox Brasil e a Colectta, acertaram quem ia ganhar. E mesmo elas deram ao Lula menos do que ele teve. Os institutos costumam dizer que pesquisa é retrato do momento. No dia 25, apareceu na urna muita gente que não estava no retrato.