Não, a proposta de André Lara Resende não vai tabelar os juros. Quem responde é a economista Monica de Bolle (PhD, Johns Hopkins), em mais um corte da live que ela fez no Substack dela em 2 de novembro de 2026, sobre o ensaio do André "Eu Acuso: uma proposta para eliminar os juros absurdos", de 25/09/2026. "Tabelar os juros é uma coisa que não existe na cabeça de ninguém", diz ela.
Os mesmos avisos da primeira parte valem aqui: o ensaio é técnico e denso, e o que Monica apresenta é o diagnóstico, não o tratamento. Os gráficos e dados na tela foram feitos pelo Contraponto para ilustrar a fala dela.
Por que não é tabelamento
Tabelar os juros é fixá-los por decreto. Na literatura econômica, explica Monica, isso equivale a fazer repressão financeira. E não seria o André a propor isso: foi ele quem fez o Plano Real, em 1994, quem fez a URV e quem montou a ideia da moeda remunerada, que está por trás da transição. Na tela, a URV aparece como "a ponte para o real, em 4 meses": CR$ 647,50 viraram CR$ 2.750, que viraram R$ 1 (fonte: Banco Central do Brasil). "Isso é de uma falta de noção total", diz Monica.
A dívida brasileira não é corroída pela inflação
O ponto central é outro. Países com dívida alta, endividados na própria moeda, fazem o seguinte quando já não têm meios de financiar essa dívida: emitem moeda, criam inflação e corroem a dívida. Um título de 100 passa a valer menos. Isso vale para praticamente todos os países do mundo, diz Monica, mas não para o Brasil.
O gráfico do vídeo mostra quanto da dívida pública de cada país segue os juros do dia, ou seja, a porcentagem de títulos com juros pós-fixados. Nos EUA, 2%. Na Alemanha, no Reino Unido e no Japão, 0%. Na Itália, 4,5%. No México, 13,7%. No Brasil, 49%.

A razão está na história. Na época da hiperinflação muito alta, o Brasil criou mecanismos para proteger a dívida da inflação. O principal que aparece na tela é a LFT, o Tesouro Selic, título que rende a Selic do dia.
Uma coisa leva à outra
Por isso, no Brasil, quando a inflação sobe, a dívida pública não é corroída. "Pelo contrário, ela aumenta." A cadeia é esta: a inflação sobe, o Banco Central aumenta a taxa de juros, e tudo o que está pós-fixado em Selic faz a dívida aumentar de súbito. É uma herança da época hiperinflacionária.
Na ilustração do Contraponto, a dívida pública federal é de R$ 9,27 trilhões, e 49% dela, R$ 4,6 trilhões, está em LFT. Se a Selic sobe de 13,75% para 14,75%, a conta cresce: cada ponto de Selic soma R$ 46 bilhões por ano.

Primeiro o diagnóstico, depois o tratamento
Monica insiste que está falando do diagnóstico da economia brasileira: uma dívida presa aos juros do dia, herança da hiperinflação. Primeiro é preciso consenso sobre ele. Só a partir daí se discute o tratamento, que pode ser a proposta do André, a proposta do André modificada ou a de outra pessoa, desde que atenda ao diagnóstico.
O mercado financeiro, diz ela, precisa entender que isso é para o bem de todos. "Todos lucrarão com isso, ainda que tenham que aceitar algum sacrifício de imediato." E já aceitaram antes: em 1994, no Plano Real.
O Plano Real foi mais difícil
Para Monica, o Plano Real foi, em muitos aspectos, muito mais difícil do que o que se propõe agora. O país vivia um caos econômico no meio dos anos 90, com o confisco da poupança do Plano Collor, em 1990, poucos anos antes. O gráfico mostra a inflação pelo IPCA, que chegou a 2.477% ao ano em 1993, depois de uma série de planos que falharam: Cruzado (86), Bresser (87), Verão (89), Collor (90) e Collor II (91). Com o real, a inflação caiu até 1,7% em 1998.

"E ainda assim a gente conseguiu fazer um plano de enorme envergadura. Por que a gente não conseguiria agora?"