Minas Gerais tem 36% da malha ferroviária do Brasil, mas só 8% das cargas do estado seguem de trem. O resto vai de caminhão. Para Gabriel Azevedo, que narra e assina a proposta deste vídeo do Contraponto, o que falta não são trilhos nem projetos: é decisão política. E o dinheiro para resolver isso, diz ele, pode vir do próprio minério.
O ponto de partida é uma contradição. Minas exporta minério de ferro para o mundo todo, mas não produz trilho de trem. Tudo vem da China. "A gente tem o ferro, tem a história, tem as linhas prontas. E ainda assim, o trem parece que não anda."
Uma malha que serve à mineração
Segundo os números citados por Gabriel, mais de 70% da malha ferroviária mineira serve só à mineração. Como quase todo o resto da carga vai por estrada, o frete fica 40% mais caro e as rodovias se desgastam. Na tela aparece uma manchete da Gazeta do Povo, de 27/01/2025, com uma análise da CNT: "Minas Gerais é o estado com o maior número de pontos críticos em rodovias".
A comparação com o caminhão é direta. Cada trem de 120 vagões substitui 360 caminhões e reduz 85% das emissões de carbono.
Um trem de 120 vagões equivale a 360 caminhões e reduz 85% das emissões de carbono. Números citados por Gabriel Azevedo
R$ 34 bilhões em renovações, nada para Minas
Três empresas controlam quase toda a malha: Vale, MRS e VLI. As concessões foram renovadas até 2056 e 2057, num valor total de R$ 34 bilhões. Pela lei, diz Gabriel, metade disso, R$ 17 bilhões, deveria voltar para Minas Gerais.
Renovações das concessões ferroviárias somam R$ 34 bilhões; metade, pela lei, seriam R$ 17 bilhões para Minas. Valores citados por Gabriel Azevedo
Com esse dinheiro daria para construir mil quilômetros de novas ferrovias ou 10 terminais intermodais. "Nada disso aconteceu."
Projetos prontos não faltam. No Triângulo, a ferrovia Uberlândia–Chaveslândia ligaria Minas à Ferrovia Norte-Sul e transportaria 25 milhões de toneladas por ano. Nenhum desses projetos saiu do papel. Se andassem, a participação do trem nas cargas de Minas subiria de 8% para 25% até 2035. Isso economizaria R$ 9 bilhões por ano em logística e evitaria 2 milhões de toneladas de CO₂ na atmosfera.
Se os projetos andassem, 25% das cargas de Minas iriam por trem até 2035. Projeções citadas por Gabriel Azevedo
O problema, segundo o vídeo, é que as renovações vieram sem metas de passageiros, sem diversificação de carga e sem plano com o estado. E o trem de passageiros quase sumiu: nos anos 1980, Minas tinha 23 linhas. Hoje só restou uma, a Belo Horizonte–Vitória, com mil pessoas por dia.
A proposta: um fundo ferroviário pago pelo minério
Minas Gerais arrecada R$ 6 bilhões por ano com a mineração. A proposta de Gabriel é destinar 20% disso a um fundo ferroviário estadual. Seriam R$ 1,2 bilhão por ano para duplicar linhas, eletrificar trechos e reativar ramais.
R$ 6 bilhões por ano arrecadados com a mineração; 20% disso dariam R$ 1,2 bilhão por ano para um fundo ferroviário estadual. Valores citados por Gabriel Azevedo
Segundo a CNT, cada bilhão investido geraria 13 mil empregos e reduziria em 30% os gastos com rodovias.
A ideia tem exemplo lá fora. Na Austrália Ocidental, um estado australiano, 1% dos royalties da mineração financia ferrovias regionais. "Eles usam o que vem do subsolo para conectar o território de cima." Minas, diz Gabriel, poderia fazer o mesmo: usar o dinheiro do minério para construir um caminho que fica. "Quando o ferro acabar, o trilho precisa ficar."
Minas nos trilhos
O vídeo termina com uma escolha. Ou Minas continua parada vendo o trem passar, se contentando com a propaganda do governo do estado que diz "aqui o trem prospera", ou volta a colocar o estado nos trilhos. Para Gabriel, a resposta é clara: "O futuro mineiro está nos trilhos. E é hora de fazer a gente avançar."
Transcrição do vídeo
Minas Gerais exporta minério de ferro para o mundo todo. E sabe o que a gente não produz? Trilho de trem. Sabe de onde é que vem tudinho?
Da China. A gente tem o ferro, tem a história, tem as linhas prontas. E ainda assim, o trem parece que não anda. A gente tira daqui o que não volta pra cá.
Hoje, Minas Gerais abriga 36% da malha ferroviária do Brasil. E mesmo assim, só 8% das cargas seguem de trem. Mais de 70% da nossa malha serve apenas pra mineração. O resto vai de caminhão.
Por isso, o frete é 40% mais caro e o seu carro acha um tantão de buraco nas estradas do estado. Cada trem de 120 vagões substitui 360 caminhões e reduz 85% das emissões de carbono. Os trilhos existem, os projetos também. O que está faltando?
Decisão política. Três empresas controlam quase tudo. Vale, MRS e VLI. As concessões foram renovadas até 2056 e 2057.
O valor total dessas renovações é de 34 bilhões de reais. Pela lei, metade disso, 17 bilhões, deveria voltar pra Minas Gerais. Daria pra construir mil quilômetros de novas ferrovias ou 10 terminais intermodais. Nada disso aconteceu.
Projetos prontos? Não faltam não, gente. No Triângulo, a ferrovia Uberlândia-Chaveslândia ligaria Minas à Norte-Sul e transportaria 25 milhões de toneladas por ano. Nenhum saiu do papel, cara.
Se esses projetos andassem, a participação ferroviária subiria de 8% para 25% em Minas Gerais diante do Brasil até 2035. Isso economizaria 9 bilhões por ano em logística e evitaria 2 milhões de toneladas de gás carbônico na atmosfera. Mas as renovações das concessões vieram sem metas de passageiros, sem diversificação de carga e sem plano com estados. Veja, nos anos 1980, Minas Gerais tinha 23 linhas de trem de passageiros.
Hoje, só restou Belo Horizonte-Vitória com mil pessoas por dia, muito pouco. Minas Gerais arrecada 6 bilhões de reais por ano com a mineração. Se 20% disso fosse para um fundo ferroviário estadual, teríamos 1,2 bilhão por ano para duplicar linhas, eletrificar trechos e reativar ramais. Cada bilhão investido geraria 13 mil empregos e reduziria 30% dos gastos com rodovias.
Isso tudo segundo a CNT. Gabriel, e de onde é que você tiraria esse dinheiro? Vocês conhecem a Austrália? Pois é.
Na Austrália Ocidental, uma unidade federativa de lá, 1% dos royalties da mineração financia ferrovias regionais. Eles usam o que vem do subsolo para conectar o território de cima. Minas Gerais poderia fazer o mesmo, usar o dinheiro do minério para construir caminho que fica. Quando o ferro acabar, o trilho precisa ficar.
E por ele, Minas pode seguir adiante. A pergunta é muito simples, gente. Ou a gente vai continuar parado vendo o trem passar, se contentando com uma propaganda dizendo que aqui o trem prospera, ou nós vamos colocar Minas Gerais nos trilhos de novo. O futuro mineiro está nos trilhos.