No domingo do segundo turno, 25 de outubro de 2026, a votação foi prorrogada por duas horas, até as 19h. Quem assinou a decisão foi Cristiano Zanin, ministro do Supremo. Mas o Supremo nem deveria ter precisado entrar nessa história. O pedido passou cerca de quatro horas na mesa do presidente do TSE, Kassio Nunes Marques, sem resposta. No STF, virou decisão em 1 hora e 17 minutos. Para o Contraponto, isso tem nome: omissão.
O que aconteceu na tarde da eleição, hora a hora
13h. A campanha do Lula pediu ao TSE mais tempo de votação na Bahia. Em Salvador e em outras cidades, os ônibus rodavam com a frota reduzida, os pontos estavam lotados e havia gente sem conseguir chegar à seção (O Globo, coluna de Míriam Leitão, e Mais Goiás, 25/10).
Quem decide esse tipo de pedido no dia da eleição é o presidente do TSE, Kassio Nunes Marques, indicado ao STF por Bolsonaro em 2020.
14h17. O TRE da Bahia determinou a retomada integral da frota de ônibus em Salvador. A decisão mandava prender em flagrante o secretário de Mobilidade e previa multa de R$ 1 milhão por hora (Agência Brasil, 25/10/2026).
Depois das 15h. A campanha estendeu o pedido ao TSE: não só a Bahia, mas o Brasil todo (O Globo, Míriam Leitão).
15h46. O mesmo pedido chegou ao Supremo. A petição inicial foi recebida em 25/10/2026, às 15:46:14, segundo o portal do STF (Reclamação 101.673).
15h56. Kassio disse que não descartava estender a votação, mas que aguardava um relatório. Segundo o Terra e o Estadão, Nunes Marques deu meia hora, a partir das 16h07, para a PGE se manifestar sobre a extensão.
Por que o pedido caiu com Zanin
No Supremo, domingo é dia de plantão. Só entra pedido urgente, e o relator é sorteado entre os ministros (Resolução STF 788/2022; Revista Oeste e Metrópoles). O sorteio caiu em Cristiano Zanin. Ou seja: ninguém escolheu o Zanin.
16h47. Enquanto isso, a campanha do Flávio também pedia mais tempo, por causa da chuva (InfoMoney e Bloomberg Línea, ao vivo, 25/10).
17h. As urnas começaram a fechar. Segundo a Bloomberg Línea, até as 17h o TSE não havia decidido os pedidos.
Por volta das 17h. Zanin decidiu. Na decisão, ele registra que os fatos "chegaram ao conhecimento do Supremo Tribunal Federal em 16:32:49" e determina a "prorrogação por duas horas, até as 19h".

Quarenta e seis minutos de atraso
O TSE só mandou cumprir a decisão às 17h49, 46 minutos depois. A essa altura, muitas urnas já estavam desligadas, e essas não reabriram. Segundo o ABC+ e o Estadão, Nunes Marques comunicou os TREs sobre a prorrogação quase uma hora após o horário oficial. Os TREs reclamaram que não tinham sido informados oficialmente da decisão e fecharam milhares de seções. Em alguns lugares, o aviso nem chegou a tempo.
A linha inteira: 4 horas contra 1h17
Colocando os dois relógios lado a lado, a diferença fica clara. No Supremo, o pedido levou pouco mais de uma hora para virar decisão: 1h17. No TSE, desde o primeiro pedido, foram 4 horas na mesa de Kassio Nunes Marques, sem resposta.

Se foi de propósito, só ele sabe. Mas o relógio não deixa dúvida. O colunista Bernardo Mello Franco, no O Globo de 25/10/2026, escreveu que "Kassio decidiu não decidir e é responsável por confusão no segundo turno": o presidente do TSE agiu por omissão, demorando a julgar os pedidos para prorrogar o horário de votação.
Para o Contraponto, foi omissão. E quem pagou por ela foi o eleitor que ficou no ponto de ônibus.