E se o Brasil elegesse um Flávio Milei? O que a Argentina mostra
Na Argentina de Milei, tarifas subiram 966% e o salário mínimo perdeu 39,3% do poder de compra. Celso Rocha de Barros mostra o que isso faria no Brasil.
Se Flávio Bolsonaro copiar Javier Milei, como a própria campanha sugere, o ajuste vai cair em cima de salários e aposentadorias. Foi o que aconteceu na Argentina: as tarifas de luz, água e transporte subiram 966% e o salário mínimo perdeu 39,3% do poder de compra. Quem faz a conta é Celso Rocha de Barros.
Por que olhar para Milei
Celso começa sem rodeios. Para ele, Daniella Marques, coordenadora econômica de Flávio Bolsonaro, "é uma fraude", e os números dela são "totalmente chutados". Foi o que ele disse no Foro de Teresina, em 9 de outubro de 2026.
Então, o que sobra para imaginar um governo Flávio na economia? A outra pista que a campanha deu. Segundo a Exame, em 14 de setembro de 2026, a coordenadora disse: "Vamos nos inspirar nas reformas que Milei fez". E, em matéria da Bloomberg Línea de 21 de setembro, ela afirma que "Milei é um ótimo exemplo".
O problema: em 29 de agosto, segundo o SBT News, Flávio prometeu preservar o salário mínimo. "Eu não farei economia com quem ganha salário mínimo, não farei economia com aposentados." Copiar Milei é fazer exatamente o contrário.
O que Milei fez
Milei assumiu a presidência em 10 de dezembro de 2023 e liberou os preços administrados: conta de luz, conta de água, ônibus, petróleo, plano de saúde. Tudo pode subir. Ao mesmo tempo, ficou meses sem reajustar salários e aposentadorias. Resultado: o valor real dos salários e das aposentadorias despencou.
Celso lembra que, antes do Plano Real, era assim que o Brasil fazia ajuste fiscal. O governo deixava a inflação comer o valor real dos gastos e arrecadava mais imposto com os preços mais altos.
Inflação no Brasil antes do Plano Real: 1.973% em 1989, 1.621% em 1990, 473% em 1991, 1.119% em 1992, 2.477% em 1993 e 916% em 1994. Fonte: IPCA, IBGE
As contas e o salário
Um indicador do IIEP, da UBA-Conicet, mede as tarifas de serviços públicos na Grande Buenos Aires. Entre dezembro de 2023 e julho de 2026, elas subiram 966%. A inflação no período foi de 241%. Como resumiu o jornal El Economista em 21 de julho de 2026, as tarifas dispararam quase quatro vezes mais que a inflação.
Tarifas de serviços públicos na Grande Buenos Aires subiram 966% de dezembro de 2023 a julho de 2026, contra inflação de 241%. Fonte: IIEP, UBA-Conicet, via El Economista
Trazendo para cá: quem paga R$ 50 de conta de luz ou de água hoje passaria a pagar R$ 533 se um "Flávio Milei" assumisse o governo.
O salário perdeu na outra ponta. Janaína Figueiredo, no UOL Economia (18 de setembro de 2026), cita dados da Universidade de Buenos Aires: entre novembro de 2023 e abril de 2026, o salário mínimo argentino perdeu 39,3% do poder real de compra. No Brasil, um salário mínimo de R$ 1.621 valeria, na prática, 988 reais, pela conta do vídeo.
Mais dívida e juros de 700%
Com a renda em queda, os argentinos foram se endividar, e muito mais que os brasileiros. Segundo a Bloomberg Línea (4 de agosto de 2026), a Argentina lidera a inadimplência bancária na América Latina: 7,6% do crédito da pessoa física está em atraso. O Brasil está em 3,9%, a Colômbia em 3,0% e o Chile em 2,4%.
Inadimplência da pessoa física: Argentina 7,6%, o maior índice da América Latina, contra Brasil 3,9%, Colômbia 3,0% e Chile 2,4%. Fonte: Consultoria 1816 / Banco Mundial
Na mesma matéria do UOL, a economista Mariana González, do centro de pesquisa argentino Cifra, diz que os argentinos de classe mais baixa estão muito endividados. Os empréstimos fora dos bancos cresceram 16%, em plataformas virtuais que cobram juros de até 700% ao ano. Quem pegou 100 em janeiro paga 800 em dezembro: a dívida se multiplica por oito em doze meses.
O que dá para prever pela Argentina de Milei: tarifas +966%, salário mínimo −39,3% de poder de compra, inadimplência de 7,6% e juros de até 700% ao ano fora dos bancos
Alarmismo?
Celso antecipa a crítica: isso não é alarmismo, como o PT fez contra Marina Silva em 2014. Ele diz que qualquer economista de mercado, em particular, vai confirmar que os números da campanha são mentira. E a campanha disse claramente que Milei é o modelo. Então, os dados que existem para prever são esses.
Se o plano for outro, que Flávio mostre qual é.
Transcrição do vídeo
Bom, pra começar, alguém precisa dizer em voz alta o que todos os economistas dizem nos bastidores. Daniella Marques é uma fraude. Os números da Daniella Marques são totalmente chutados. O que a gente tem de vislumbre do que seria o governo Flávio Bolsonaro na economia é a outra sugestão que eles já deram, que eles vão copiar o Milei.
O Milei, pelo menos, a gente já sabe o que fez. Então, vamos lá. O que um Flávio Milei faria se fosse presidente hoje? Ele faria o que o Flávio Bolsonaro prometeu que não ia fazer.
O ajuste em cima de salário e em cima de aposentadoria. O que o Milei fez foi, ele entrou, assumiu a presidência e liberou o preço de todos os preços administrados. Conta de luz, conta de água, ônibus, petróleo, plano de saúde, tudo. Pode subir o que vocês quiserem.
E não reajustou nem salários nem aposentadoria por alguns meses. Resultado, o valor real dos salários das aposentadorias despencou. Antes do plano real, era assim que se fazia ajuste fiscal no Brasil. O governo deixava a inflação comer o valor real dos gastos e arrecadava imposto com o preço mais alto.
Então, olha só, pra vocês terem uma ideia do que seria o governo Flávio Milei. Tem um indicador na Argentina que mede a variação dos preços das tarifas de luz, água e transporte público. Registrou um aumento de, vamos lá, 966% entre dezembro de 2023 e julho de 2026. Ou seja, o preço de todas as contas que os argentinos pagam disparou.
Então, por exemplo, se você paga 50 reais de conta d'água hoje em dia, ou de luz, e se o Flávio Milei assume o governo hoje, sua conta vai para 533 reais. A Janaína Figueiredo também mostrou que dados da Universidade de Buenos Aires mostram que entre novembro de 2023 e abril de 2026, o salário mínimo perdeu 39,3% do seu poder real de compra. Ou seja, se você ganha um salário mínimo brasileiro, que é de 1.621 reais, e Flávio Milei assume o governo hoje, seu salário vai valer, na prática, 988 reais.
E mais, conforme caiu a renda das pessoas porque as aposentadorias e os salários despencaram na Argentina, aconteceu a mesma coisa que aqui, o pessoal foi se endividar. Mas se endividou muito mais. Então, por exemplo, uma matéria da Bloomberg Línea, de 4 de agosto de 2026, mostra que a inadimplência de carteira de crédito da pessoa física na Argentina está em 7,6% da população, o maior índice da América Latina de longe. O Brasil está em 3,9%, a Colômbia está em 3% e o Chile 2,4%.
Na matéria da Janaína, ela cita a economista e pesquisadora Mariana González, do Centro de Pesquisa e Formação da República Argentina, mostrando que os argentinos de classe mais baixa estão muito endividados e que, inclusive, houve um crescimento de 16% no endividamento fora do sistema bancário, em umas plataformas virtuais que cobram juros de até 700% ao ano. Ou seja, o argentino que pegou 100 reais em janeiro vai pagar 800 reais em dezembro se ele foi forçado, pela desvalorização salarial, a pegar dinheiro emprestado em uma dessas plataformas. Aí vai ter alguém dizendo assim, cara, mas você está dizendo isso, isso é alarmismo, é aquilo que o PT fez contra a Marina Silva em 2014. Não é.
Isso aqui que eu estou dizendo aqui é o que a Daniella Marques está dizendo, que todo mundo sabe que é mentira. Se vocês quiserem, vocês perguntam para os economistas de mercado favoritos de vocês, em particular, eles vão dizer para você que é tudo mentira. E claramente disseram que o Milei é um modelo. Então, o que a gente tem para fazer uma previsão são esses dados aqui.
Se o plano for outro, o Flávio que nos mostra qual é.