Flávio Bolsonaro em Miami: o recado do Contraponto aos americanos

Flávio perdeu a eleição e pousou em Miami. O vídeo apresenta aos americanos o caso Dark Horse, as apostas de Willer Tomaz e o caso Ana Clara.

Flávio Bolsonaro perdeu a eleição presidencial no domingo, 25 de outubro. Na quarta, 28, às 10h23, pousou num jatinho vindo da Argentina no aeroporto de Opa-locka, perto de Miami, com a mulher e as duas filhas. O Contraponto fez um vídeo em inglês para apresentar o novo vizinho aos americanos e explicar do que ele está fugindo.

A saída que ele perdeu no domingo

Na segunda, Flávio postou um vídeo dizendo que nunca pensou em sair do país e que entregaria os passaportes ao Supremo. Na noite seguinte, tinha sumido. À NBC News, disse que é vítima de "uma clara tentativa de intimidação".

A explicação é mais simples. Pelo artigo 86, parágrafo 4º, da Constituição, o presidente, durante o mandato, não pode ser responsabilizado por atos estranhos às suas funções. Era a saída dele. E ele a perdeu no domingo.

O filme de US$ 24 milhões

Em 17 de novembro de 2025, a Polícia Federal parou Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, no aeroporto de Guarulhos, quando ele ia embarcar num jatinho para o exterior. Segundo a PF, o banco vendeu a um banco público R$ 12,2 bilhões em créditos que nunca existiram.

Seis meses depois, o The Intercept Brasil divulgou um áudio de Flávio para Vorcaro: "Irmão, preferi te mandar o áudio aqui". Ele pede dinheiro para Dark Horse, o filme sobre o pai: cerca de US$ 24 milhões, ou R$ 134 milhões. É quase três vezes o custo estimado de Ainda Estou Aqui, o filme mais caro já feito no Brasil.

Os US$ 24 milhões pedidos para o filme Dark Horse equivalem a cerca de três vezes Ainda Estou Aqui, o filme mais caro já feito no Brasil (R$ 45 milhões, estimativa da Folha). Fonte: Intercept Brasil via CNN Brasil e Folha via Terra
Os US$ 24 milhões pedidos para o filme Dark Horse equivalem a cerca de três vezes Ainda Estou Aqui, o filme mais caro já feito no Brasil (R$ 45 milhões, estimativa da Folha). Fonte: Intercept Brasil via CNN Brasil e Folha via Terra

Quando perguntaram pela primeira vez, Flávio disse que era mentira, segundo o Poder360. Horas depois, o áudio saiu e ele teve que admitir. Pelo menos US$ 10,6 milhões foram pagos, em seis transferências entre fevereiro e maio de 2025, e ninguém mostrou para onde foram. O ministro André Mendonça autorizou um inquérito sobre os pagamentos, e Flávio é um dos alvos da PF.

O amigo das apostas

Willer Tomaz é advogado e amigo de Flávio. Em um ano e meio, pela própria ação judicial dele, movimentou R$ 6,6 bilhões num único site de apostas, segundo a CNN Brasil. A polícia investiga isso como possível lavagem de dinheiro, e o ministro Alexandre de Moraes mandou bloquear os bens dele. Segundo o Metrópoles, Tomaz também apostou R$ 4,8 milhões num site que a polícia acusa de lavar dinheiro do PCC.

Num relatório da PF, e-mails achados na nuvem de Tomaz mostram Flávio como "usuário master" de uma conta no Santander da Alcazar Holdings, empresa de Tomaz. Os dois negam. Em 21 de agosto de 2026, depois das buscas na casa dele, Tomaz também voou para Miami.

Relatório da Polícia Federal: conta no Santander da Alcazar Holdings Ltda., empresa de Willer Tomaz, com Flávio Bolsonaro como usuário master, com "alto nível de acesso e gestão"
Relatório da Polícia Federal: conta no Santander da Alcazar Holdings Ltda., empresa de Willer Tomaz, com Flávio Bolsonaro como usuário master, com "alto nível de acesso e gestão"

O caso Ana Clara

Em fevereiro de 2021, em Niterói, Ana Clara Gomes Machado, de 5 anos, brincava na porta de casa quando um tiro de fuzil a matou. Um policial foi preso em flagrante. Disse que estava num tiroteio, mas a perícia só achou vestígios de calibre 7,62 mm, o do fuzil dele.

Quando a defesa do cabo foi ao Superior Tribunal de Justiça para tentar livrá-lo do júri, um dos nomes no recurso era o de um senador em exercício: Flávio Bolsonaro. O tribunal negou, por 3 a 2. O policial ainda não foi julgado. Os críticos de Flávio veem nisso mais um sinal das ligações dele com o crime organizado no Rio.

Recurso AREsp 2.240.835/RJ no STJ: o cabo Bruno Dias Delaroli pede para não ir a júri; entre os advogados, Flávio Nantes Bolsonaro. Negado por 3 a 2; júri marcado para 5 de maio de 2027
Recurso AREsp 2.240.835/RJ no STJ: o cabo Bruno Dias Delaroli pede para não ir a júri; entre os advogados, Flávio Nantes Bolsonaro. Negado por 3 a 2; júri marcado para 5 de maio de 2027

E esses são só três casos. Em carta lida na Local 10, Flávio agradeceu a Trump e ao "maravilhoso povo americano" por acolhê-lo. A gente achava que os Estados Unidos queriam manter longe "o pior do pior". Talvez a gente tenha entendido errado.

Transcrição do vídeo

Hey, America. It's us, Brazil. You just got a new neighbor, and since he used to be ours, we figured you should know who moved in. On Wednesday, October 28th, a private jet from Argentina landed at a small airport outside Miami.

On board was Flávio Bolsonaro, a Brazilian senator and the son of our former president, with his wife and two daughters. Three days earlier, he had lost our presidential election. On Monday, he posted a video saying he never thought of leaving the country and that he would hand his passports over to the Supreme Court like it had ordered. The next night, he was gone.

He says he's the victim here, that all of this is an attempt to intimidate him. From down here, it looks a lot simpler. In Brazil, a sitting president can't be prosecuted for anything he did before taking office. That was his way out, and he lost it on Sunday.

So what is he running from? The biggest piece of it starts with another private jet. One night last November, the federal police stopped a banker at São Paulo's airport right as he was about to board one headed overseas. His name is Daniel Vorcaro, and police say his bank sold billions of dollars in loans that never existed.

Six months later, a voice message leaked. It's Flávio talking to Vorcaro. He calls him brother and asks for money for a movie about his father. The price tag was about $24 million, which is suspiciously high.

It's roughly three times the cost of the most expensive movie ever made in Brazil. I'm Still Here, the one that won the Oscar. When a reporter first asked him about it, Flávio said it was a lie. Hours later, the audio came out, and he had to admit it.

At least $10 million was paid, and nobody has shown where it went. That money is now a federal police investigation, with Flávio as a target. Then there's his friend Willer Tomaz. In a year and a half, Tomaz pushed more than a billion dollars through a single online betting site, and police are now looking into it as possible money laundering.

He also bet millions on another site, one that police accuse of laundering money for Brazil's biggest drug cartel. And police say Flávio was listed as the master user on a bank account of one of Tomaz's companies. Both men deny it. And in August, after police searched his home, Tomaz flew to Miami, too.

And this next one is one of the cruelest. In February 2021, in a city near Rio, a five-year-old girl named Ana Clara was playing at her front door when a rifle bullet killed her. A police officer was arrested on the spot. He said he was in a shootout, but forensics only found bullets from a rifle like his.

When his lawyers went to one of our highest courts to try to keep him from facing a jury, one of the names on that appeal was a sitting senator, Flávio Bolsonaro. The court said no. The officer still hasn't been tried. For some reason, Flávio seemed to go out of his way to help that police officer, which his critics see as one more sign of his ties to organized crime in Rio.

And those are just three. His whole list of suspicious activities is long enough to roll like the opening of Star Wars. So yeah, America, we found the warm welcome a little funny. We thought you guys wanted to keep out the worst of the worst.

Maybe we got that wrong.

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