A fuga do senador Flávio Bolsonaro para Miami custou perto de R$ 1 milhão. Pela estimativa do Contraponto, o fretamento do jatinho fica entre R$ 880 mil e R$ 1,07 milhão. Um senador ganha R$ 46.366,19 por mês. Para pagar esse voo, ele teria que juntar quase dois anos de salário sem gastar um real. Quem pagou, ninguém disse.
A viagem, hora por hora
O Contraponto montou a viagem com os registros da migração argentina, os sites que rastreiam aviões e a imprensa do Brasil e da Argentina.
Na noite de terça, 27 de outubro de 2026, às 22h50, a família do senador atravessa a Ponte Tancredo Neves, entre Foz do Iguaçu e Puerto Iguazú, segundo a Direção Nacional de Migrações da Argentina, via Agência Pública e g1. O Supremo tinha mandado ele entregar os passaportes, o brasileiro e qualquer estrangeiro, por decisão do ministro Alexandre de Moraes. Ele não entregou.
Do lado argentino, espera um Gulfstream G-IV/G400, prefixo LV-JQW, fabricado em 2004, com 13 lugares, da Baires Fly, uma empresa de Buenos Aires. Pelo Flightradar24, o avião pousou em Puerto Iguazú na segunda, 26 de outubro, perto da meia-noite. Na tarde desse mesmo dia, às 16h40, o Flávio tinha publicado um vídeo no Instagram dizendo: "Eu nunca pensei em sair do país". E que ia entregar os passaportes.
Às 23h30 de terça, a família embarca. Na declaração geral do voo, publicada pelo jornalista Pablo Duggan, da C5N, a mulher e as filhas aparecem como brasileiras. O Flávio, não: ele embarca com passaporte italiano.
O desvio para não passar pelo Brasil
A linha mais curta de Puerto Iguazú até Miami tem 6.351 km e passa por cima do Brasil. O avião foi para o outro lado. Cruzou o Paraguai, a Bolívia e o Peru e desceu em Guayaquil, no Equador, para abastecer. Segundo a imprensa argentina, o desvio foi para evitar o espaço aéreo brasileiro, onde o voo poderia ser interceptado pela Força Aérea. Depois, subiu até Opa-locka, um aeroporto de jatinhos em Miami. Foram 6.875 km com a escala, umas 10 horas de voo. Menos de 12 horas depois de cruzar a ponte, o Flávio estava em Miami.
Rota do voo LV-JQW: de Puerto Iguazú a Guayaquil, contornando o espaço aéreo brasileiro, e de lá a Opa-locka, em Miami. São cerca de 10 horas de voo e 6.875 km com a escala, contra 6.351 km em linha reta. Fonte: Flightradar24 via Times Brasil; motivo do desvio: La Nación e Times Brasil; distâncias: Great Circle Mapper
A conta do fretamento
Um avião desses se aluga por hora de voo. O Contraponto checou o preço em corretoras americanas que fretam esse modelo. A Mercury Jets diz que a média é de US$ 7.000 por hora. A Paramount Business Jets fala em US$ 8.500. Em cima disso, entram taxas e impostos, uns 15%. Com o dólar a R$ 5,33 (PTAX de 27/10), as 10 horas com a família a bordo custam de R$ 373 mil a R$ 453 mil.
Mas essa é só a parte que dá para ver. O avião saiu de Buenos Aires para buscar o Flávio: 1.044 km, 1,5 hora. E depois tem que voltar vazio de Miami para Buenos Aires: 7.062 km, mais umas 9 horas. Quem aluga só a ida costuma pagar o reposicionamento também.
Mapa do trajeto completo do avião: a busca de Buenos Aires a Puerto Iguazú (1.044 km, 1,5 h), o voo até Miami e a volta vazia de Miami a Buenos Aires (7.062 km, cerca de 9 h). Fonte: base da Baires Fly em Buenos Aires; distâncias: Great Circle Mapper
Somando tudo, são cerca de 20,5 horas de voo. A conta fica entre R$ 880 mil e R$ 1,07 milhão. E a estimativa nem conta o dia em que o avião ficou parado em Iguazú.
Nota de fretamento estimada pelo Contraponto para o LV-JQW: US$ 7.000 a US$ 8.500 por hora, mais 15% de taxas, cerca de 20,5 horas de voo, total de R$ 880 mil a R$ 1,07 milhão, perto de R$ 1 milhão. Fonte: Mercury Jets, Paramount Business Jets e Acejet; dólar PTAX de 27/10, R$ 5,33
O subsídio mensal de um senador é de R$ 46.366,19, segundo o Senado Federal. R$ 1 milhão dividido por esse salário dá 21,6 meses. São 22 meses de salário, sem gastar um real. Senador honesto não tem esse dinheiro.
R$ 1 milhão equivale a 22 meses do subsídio de senador, de R$ 46.366,19, sem gastar um real. Fonte: Senado Federal, subsídio bruto desde 1º/02/2025
Quem pagou? A Baires Fly não respondeu à imprensa sobre o fretamento, segundo o ICL Notícias.
"Nossa democracia faliu"?
No mesmo vídeo de segunda em que prometeu entregar os passaportes, o Flávio disse que aquela ordem era um sinal de que "a nossa democracia faliu". Mas será mesmo?
O jornalista Octávio Guedes respondeu na GloboNews: o Flávio está fugindo de um país no qual concorreu livremente, no qual o irmão dele é senador, e que lhe deu milhões de votos. Foram 59 milhões de pessoas que foram às urnas e votaram livremente nele. "Então, ele está fugindo de uma democracia. Ele está fugindo do acerto de contas com a Justiça."
Transcrição do vídeo
Na noite de 27 de outubro, às 22h50, a família do senador Flávio Bolsonaro atravessa a ponte entre Foz do Iguaçu e a Argentina. O Supremo tinha mandado ele entregar os passaportes, o brasileiro e qualquer estrangeiro, e ele não entregou. Menos de 12 horas depois, ele está em Miami. A gente montou essa viagem com os registros da migração argentina, os sites que rastreiam aviões e a imprensa dos dois países, e ficou uma pergunta que ninguém respondeu.
Quanto custou e quem pagou? Do lado argentino, espera este avião, um Gulfstream G400 de 2004, de uma empresa de Buenos Aires, a Baires Fly. E tem um detalhe. Pelo Flightradar, ele pousou em Puerto Iguazú na segunda, perto da meia-noite.
Na tarde desse mesmo dia, o Flávio tinha gravado um vídeo dizendo que nunca pensou em sair do país e que ia entregar os passaportes. Às 23h30 de terça, a família embarca. Na declaração de voo, a mulher e as filhas aparecem como brasileiras. O Flávio, não.
Ele embarca com passaporte italiano. E repara no caminho. A linha mais curta até Miami passa por cima do Brasil. Esse avião vai para o outro lado, cruza o Paraguai, a Bolívia e o Peru e desce no Equador.
Segundo a imprensa argentina, o desvio foi para evitar o espaço aéreo brasileiro, onde o voo poderia ser interceptado pela Força Aérea. Depois, sobe até um aeroporto de jatinhos em Miami. Umas 10 horas de voo. Agora, quanto custa isso?
Um avião desses se aluga por hora de voo, então a gente foi checar o preço em corretoras americanas que fretam esse modelo. Uma diz que a média é de 7 mil dólares a hora, outra fala em 8 mil e 500, e em cima disso entram taxas e impostos, uns 15%. Mas as 10 horas com a família a bordo são só a parte que dá pra ver. O avião voou de Buenos Aires pra buscar o Flávio e agora tem que voltar vazio, mais 9 horas.
E quem aluga só a ida costuma pagar essa volta também. Somando tudo, são umas 20 horas de voo, e a conta chega perto de 1 milhão de reais. Um senador ganha 46 mil reais por mês. Pra pagar esse voo, ele teria que juntar quase 2 anos de salário sem gastar 1 real.
Senador honesto não tem esse dinheiro. Quem pagou, ninguém disse. A Baires Fly não respondeu à imprensa sobre o fretamento. Na segunda, no mesmo vídeo em que prometeu entregar os passaportes, ele disse que aquela ordem era sinal de que a nossa democracia tinha falido.
Mas será mesmo? O Flávio Bolsonaro está fugindo de um país no qual ele concorreu livremente. Sim. Ele está fugindo de um país no qual o irmão dele é senador.
Ele está fugindo de um país que lhe deu milhões, 59 milhões de pessoas foram às urnas livremente manifestar a votação nele. Então, ele está fugindo de uma democracia. Ele está fugindo do acerto de contas com a Justiça. Segue o Contraponto para ver mais vídeos como esse.