Por que a Bolsa caiu depois da vitória do Lula? A aposta no Flávio

A Bolsa caiu quase 14% na segunda porque tinha subido apostando só na vitória do Flávio. Numa eleição empatada, o mercado errou a aposta.

A Bolsa não desabou porque o Lula ganhou. Desabou porque estava alta demais: subiu em outubro apostando só na vitória do Flávio Bolsonaro, numa eleição que as pesquisas mostravam empatada. Quando o eleitor escolheu o outro lado, quem tinha apostado correu para vender. Essa é a explicação do Contraponto para a queda de segunda-feira, 26 de outubro de 2026.

O pior dia desde a pandemia

A manchete foi "o Lula ganhou e a Bolsa desabou". Na segunda, o Ibovespa abriu a partir dos 205.089 pontos da sexta e caiu tão rápido que, às 9h57, o circuit breaker de 10% suspendeu as negociações na B3. No fim do dia, fechou em 176.608 pontos, queda de quase 14%. Foi o pior dia desde a pandemia: o gráfico de piores dias desde 1995 coloca 26/10/2026 (-13,9%) ao lado de 16/03/2020, atrás só de 12/03/2020, 27/10/1997 e 10/09/1998.

Piores dias do Ibovespa desde 1995: 10/09/1998 (-15,8%), 27/10/1997 (-15,0%), 12/03/2020 (-14,8%), 16/03/2020 (-13,9%) e 26/10/2026 (-13,9%). Fonte: B3/Yahoo Finance; InfoMoney e Terra, 26/10/2026
Piores dias do Ibovespa desde 1995: 10/09/1998 (-15,8%), 27/10/1997 (-15,0%), 12/03/2020 (-14,8%), 16/03/2020 (-13,9%) e 26/10/2026 (-13,9%). Fonte: B3/Yahoo Finance; InfoMoney e Terra, 26/10/2026

O dólar, que fechou a sexta (23/10) a R$ 4,99, chegou a R$ 5,61 às 10h46, alta de 12,35% numa única manhã. Fechou o dia a R$ 5,41, alta de 8,36%, segundo Forbes Brasil e Reuters.

A pergunta certa: por que estava tão alta na sexta?

Quando o Flávio saiu na frente no primeiro turno, em 4 de outubro (47,03% contra 45,16% do Lula, pelo TSE), a Bolsa subiu 7,70% num dia só. Até a véspera do segundo turno, outubro acumulava alta de 10,06%. As empresas não mudaram em três semanas. Segundo dados do Goldman Sachs citados por InfoMoney e O Povo, 85% da alta entre os turnos veio da queda dos juros longos: expectativa política, não lucro novo das empresas. O que mudou foi a aposta.

Ibovespa em outubro de 2026: alta de 7,70% num dia após o 1º turno e de 10,06% no mês; 85% da alta entre os turnos veio da queda dos juros longos. Fonte: B3/Yahoo Finance; TSE; InfoMoney e O Povo, 24/10/2026 (Goldman Sachs)
Ibovespa em outubro de 2026: alta de 7,70% num dia após o 1º turno e de 10,06% no mês; 85% da alta entre os turnos veio da queda dos juros longos. Fonte: B3/Yahoo Finance; TSE; InfoMoney e O Povo, 24/10/2026 (Goldman Sachs)

Só que a eleição estava empatada. No sábado, 24 de outubro, o Datafolha mostrava Flávio com 51% e Lula com 49% dos votos válidos, dois pontos de diferença, dentro da margem de erro. MDA (50,7 a 49,3) e Quaest (45 a 44) também mostravam disputa apertada. Mesmo assim, como disse Thomas Haugaard, gestor da Janus Henderson, à Reuters: "A aposta na eleição já estava precificada, enquanto o risco de uma vitória de Lula não estava."

O resultado de domingo, 25 de outubro, foi Lula 51,79% e Flávio 48,21%. Na segunda, foram R$ 76,9 bilhões negociados, com todo mundo vendendo ao mesmo tempo.

E o Flávio piorou a situação. No domingo, às 22h50, disse em pronunciamento que não reconhece o resultado: "Vamos pedir a anulação dessas eleições". Até 27 de outubro, segundo InfoMoney e Poder360, nenhuma prova tinha sido apresentada.

A aposta foi deles, a conta pode ser de todos

O risco é real. Se o dólar ficar alto por meses, ele chega ao preço do combustível e da comida, e os juros sobem junto. O InfoMoney informou que o mercado já prevê Selic maior em novembro. O vídeo ressalva que o repasse do câmbio vem com defasagem e varia.

Mas um dia de pânico não é a economia. Mesmo depois da segunda, o Ibovespa ainda acumula alta de 9,6% em 2026, de 161 mil para 176,6 mil pontos. E o dólar à vista, que estava a R$ 5,49 em 31/12/2025, fechou o dia 26/10 a R$ 5,41, queda de 1,5% no ano.

Ibovespa em 2026: de 161 mil para 176,6 mil pontos, +9,6% no ano mesmo depois da segunda; dólar à vista de R$ 5,49 (31/12/2025) para R$ 5,41 (26/10/2026). Fonte: B3/Yahoo Finance; O Povo, 24/10; Forbes/Reuters, 26/10/2026
Ibovespa em 2026: de 161 mil para 176,6 mil pontos, +9,6% no ano mesmo depois da segunda; dólar à vista de R$ 5,49 (31/12/2025) para R$ 5,41 (26/10/2026). Fonte: B3/Yahoo Finance; O Povo, 24/10; Forbes/Reuters, 26/10/2026

O Brasil já viu esse filme

Em 2002, o mercado entrou em pânico antes de o Lula ganhar. Foi o chamado "efeito Lula": a Bolsa caiu 42% de março a 16 de outubro, e o dólar (PTAX) chegou a R$ 3,96 em 22 de outubro, dias antes da eleição de 27/10. Oito anos depois, o Ibovespa tinha saído de 11.268 para 69.305 pontos, 6,2 vezes mais. E o dólar, que começou em R$ 3,53, tinha caído para menos da metade.

Pelo cálculo do Contraponto, com dados do Banco Central e da B3, desde o Plano Real o dólar só ficou mais barato nos dois primeiros governos do Lula (-40% e -22%). E a Bolsa medida em dólar teve com ele os seus três melhores mandatos: +552% no Lula 1, +100% no Lula 2 e +52% no Lula 3, até 26/10/2026.

Bolsa em dólar por governo, do início ao fim do mandato: Lula 1 +552%, Lula 2 +100%, Lula 3 +52% (até 26/10), Temer +49%, FHC 1 +10%, Bolsonaro -7%, Dilma 2 -19%, FHC 2 -43%, Dilma 1 -55%. Fonte: Banco Central (PTAX), B3/Yahoo; cálculo Contraponto
Bolsa em dólar por governo, do início ao fim do mandato: Lula 1 +552%, Lula 2 +100%, Lula 3 +52% (até 26/10), Temer +49%, FHC 1 +10%, Bolsonaro -7%, Dilma 2 -19%, FHC 2 -43%, Dilma 1 -55%. Fonte: Banco Central (PTAX), B3/Yahoo; cálculo Contraponto

O fim do mundo não veio. Na segunda-feira, o Brasil não quebrou. Quem quebrou a cara foi quem apostou que o Lula não ganhava.

Transcrição do vídeo

Você deve ter visto a manchete. O Lula ganhou e a Bolsa desabou. Na segunda, a queda foi tão rápida que o sistema da B3 travou as negociações logo na abertura. No fim do dia, a Bolsa tinha perdido quase 14%, o pior dia desde a pandemia.

E o dólar chegou a subir 12% numa única manhã. Só que a pergunta que interessa não é por que a Bolsa caiu na segunda. É por que ela estava tão alta na sexta. Quando Flávio saiu na frente no primeiro turno, a Bolsa subiu quase 8% num dia só e fechou outubro até a véspera da votação com 10% de alta.

As empresas não mudaram em três semanas. O que mudou foi a aposta. Só que a eleição estava empatada. No sábado, o Datafolha mostrava dois pontos de diferença dentro da margem de erro.

E mesmo assim, como disse um gestor de fundos à Reuters, a vitória do Flávio já estava no preço. E o risco de o Lula ganhar, não. Numa eleição empatada, o mercado apostou num lado só. E quando o eleitor escolheu o outro, quem tinha apostado correu pra vender tudo ao mesmo tempo.

E o Flávio piorou a situação. No domingo à noite, disse que não reconhece o resultado e que vai pedir a anulação da eleição. Até agora, sem apresentar prova. A aposta foi deles, mas a conta pode sobrar pra todo mundo.

Se o dólar ficar alto por meses, ele chega ao preço do combustível e da comida. E os juros sobem junto. Mas um dia de pânico não é a economia. Mesmo depois da segunda, a bolsa ainda está acima de onde começou o ano.

E o dólar, abaixo. E a gente já viu esse filme. Em 2002, o mercado entrou em pânico antes de o Lula ganhar. E o dólar encostou nos 4 reais.

Oito anos depois, a bolsa valia seis vezes mais. E o dólar tinha caído pra menos da metade. Desde o Plano Real, o dólar só ficou mais barato nos dois primeiros governos do Lula. E a bolsa, medida em dólar, teve com ele os seus três melhores mandatos.

Mas o fim do mundo não veio. Na segunda-feira, o Brasil não quebrou. Quem quebrou a cara foi quem apostou que o Lula não ganhava. E a bolsa, o Brasil não ganhou.

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