A Bolsa não desabou porque o Lula ganhou. Desabou porque estava alta demais: subiu em outubro apostando só na vitória do Flávio Bolsonaro, numa eleição que as pesquisas mostravam empatada. Quando o eleitor escolheu o outro lado, quem tinha apostado correu para vender. Essa é a explicação do Contraponto para a queda de segunda-feira, 26 de outubro de 2026.
O pior dia desde a pandemia
A manchete foi "o Lula ganhou e a Bolsa desabou". Na segunda, o Ibovespa abriu a partir dos 205.089 pontos da sexta e caiu tão rápido que, às 9h57, o circuit breaker de 10% suspendeu as negociações na B3. No fim do dia, fechou em 176.608 pontos, queda de quase 14%. Foi o pior dia desde a pandemia: o gráfico de piores dias desde 1995 coloca 26/10/2026 (-13,9%) ao lado de 16/03/2020, atrás só de 12/03/2020, 27/10/1997 e 10/09/1998.

O dólar, que fechou a sexta (23/10) a R$ 4,99, chegou a R$ 5,61 às 10h46, alta de 12,35% numa única manhã. Fechou o dia a R$ 5,41, alta de 8,36%, segundo Forbes Brasil e Reuters.
A pergunta certa: por que estava tão alta na sexta?
Quando o Flávio saiu na frente no primeiro turno, em 4 de outubro (47,03% contra 45,16% do Lula, pelo TSE), a Bolsa subiu 7,70% num dia só. Até a véspera do segundo turno, outubro acumulava alta de 10,06%. As empresas não mudaram em três semanas. Segundo dados do Goldman Sachs citados por InfoMoney e O Povo, 85% da alta entre os turnos veio da queda dos juros longos: expectativa política, não lucro novo das empresas. O que mudou foi a aposta.

Só que a eleição estava empatada. No sábado, 24 de outubro, o Datafolha mostrava Flávio com 51% e Lula com 49% dos votos válidos, dois pontos de diferença, dentro da margem de erro. MDA (50,7 a 49,3) e Quaest (45 a 44) também mostravam disputa apertada. Mesmo assim, como disse Thomas Haugaard, gestor da Janus Henderson, à Reuters: "A aposta na eleição já estava precificada, enquanto o risco de uma vitória de Lula não estava."
O resultado de domingo, 25 de outubro, foi Lula 51,79% e Flávio 48,21%. Na segunda, foram R$ 76,9 bilhões negociados, com todo mundo vendendo ao mesmo tempo.
E o Flávio piorou a situação. No domingo, às 22h50, disse em pronunciamento que não reconhece o resultado: "Vamos pedir a anulação dessas eleições". Até 27 de outubro, segundo InfoMoney e Poder360, nenhuma prova tinha sido apresentada.
A aposta foi deles, a conta pode ser de todos
O risco é real. Se o dólar ficar alto por meses, ele chega ao preço do combustível e da comida, e os juros sobem junto. O InfoMoney informou que o mercado já prevê Selic maior em novembro. O vídeo ressalva que o repasse do câmbio vem com defasagem e varia.
Mas um dia de pânico não é a economia. Mesmo depois da segunda, o Ibovespa ainda acumula alta de 9,6% em 2026, de 161 mil para 176,6 mil pontos. E o dólar à vista, que estava a R$ 5,49 em 31/12/2025, fechou o dia 26/10 a R$ 5,41, queda de 1,5% no ano.

O Brasil já viu esse filme
Em 2002, o mercado entrou em pânico antes de o Lula ganhar. Foi o chamado "efeito Lula": a Bolsa caiu 42% de março a 16 de outubro, e o dólar (PTAX) chegou a R$ 3,96 em 22 de outubro, dias antes da eleição de 27/10. Oito anos depois, o Ibovespa tinha saído de 11.268 para 69.305 pontos, 6,2 vezes mais. E o dólar, que começou em R$ 3,53, tinha caído para menos da metade.
Pelo cálculo do Contraponto, com dados do Banco Central e da B3, desde o Plano Real o dólar só ficou mais barato nos dois primeiros governos do Lula (-40% e -22%). E a Bolsa medida em dólar teve com ele os seus três melhores mandatos: +552% no Lula 1, +100% no Lula 2 e +52% no Lula 3, até 26/10/2026.

O fim do mundo não veio. Na segunda-feira, o Brasil não quebrou. Quem quebrou a cara foi quem apostou que o Lula não ganhava.