A proposta de André Lara Resende explicada por Monica de Bolle

Para Monica de Bolle, a ideia de André Lara Resende é desindexar a dívida pública e completar o Plano Real. Entenda o diagnóstico por trás dela.

A proposta de André Lara Resende é desindexar a dívida pública brasileira e, com isso, terminar o que o Plano Real começou. Essa é a leitura da economista Monica de Bolle (PhD, Johns Hopkins), num corte de cerca de 3 minutos da live que ela fez no Substack dela em 2 de novembro de 2026. Segundo ela, ninguém entendeu o ensaio do André: "nem o povo do mercado financeiro no Brasil", nem economistas de outras linhas ideológicas. E, para entender, é preciso ter a história recente do Brasil muito clara na cabeça.

O ensaio se chama "Eu Acuso: uma proposta para eliminar os juros absurdos" e foi publicado no Substack do André em 25/09/2026. O trecho que aparece no vídeo começa assim: "O cerne do problema fiscal está no serviço da dívida. Todo o resto é secundário." O mesmo trecho diz que o custo médio da dívida chegou a 12,68% ao ano em junho e que, sobre uma dívida bruta (DBGG) de R$ 10,9 trilhões, equivalente a 82,5% do PIB, isso significa um custo de R$ 1,4 trilhão, ou 10,5% do PIB ao ano.

Um aviso que a própria Monica fez: o texto é técnico e denso, e o que ela apresenta é o diagnóstico, não o tratamento. A fala é toda dela, mas o corte junta trechos de momentos diferentes da live. Os gráficos e dados na tela foram feitos pelo Contraponto para ilustrar o que ela diz.

25 anos de hiperinflação e os mecanismos de defesa

"O Brasil é o único país no mundo que teve uma hiperinflação que durou 25 anos", diz Monica. Para se proteger de uma inflação muito alta por tanto tempo, o país criou uma série de mecanismos de defesa. Na tela, aparecem três: a correção monetária (desde 1964), o gatilho salarial (1986) e a dívida rolada no overnight, todo dia.

Inflação no Brasil, em % ao ano em escala logarítmica, de 1970 em diante: 25 anos de inflação muito alta, com pico de 2.708% em 1993. Abaixo, os mecanismos de defesa: correção monetária (desde 1964), gatilho salarial (1986) e dívida rolada no overnight (todo dia). Fonte: FGV, IGP-DI
Inflação no Brasil, em % ao ano em escala logarítmica, de 1970 em diante: 25 anos de inflação muito alta, com pico de 2.708% em 1993. Abaixo, os mecanismos de defesa: correção monetária (desde 1964), gatilho salarial (1986) e dívida rolada no overnight (todo dia). Fonte: FGV, IGP-DI

Um dos grandes sucessos do Plano Real, em 1994, foi identificar corretamente o problema de fundo da economia brasileira: a indexação. Indexação, explica Monica, são todos os mecanismos que a economia cria para se defender da inflação: preços, salários e contratos corrigidos pela inflação passada. A inflação de ontem vira o reajuste de hoje, que vira a inflação de amanhã. Os planos anteriores (Cruzado, Bresser, Verão e Collor) não tinham resolvido isso.

O que o Plano Real não desindexou

A desindexação do Plano Real foi parcial. O país conseguiu desindexar salários, preços e muitos contratos. "Mas, de um modo geral, nós não conseguimos desindexar ativos financeiros." E muitos desses ativos passaram a compor a dívida pública.

Desindexação parcial feita pelo Plano Real: salários, preços e contratos foram desindexados; os ativos financeiros ficaram indexados
Desindexação parcial feita pelo Plano Real: salários, preços e contratos foram desindexados; os ativos financeiros ficaram indexados

O resultado é que a dívida pública brasileira se comporta ao contrário do que costuma acontecer. Em geral, a inflação corrói a dívida. Aqui, ela aumenta. Monica explica a cadeia: se a inflação sobe, o Banco Central aumenta a taxa de juros. E tudo o que está pós-fixado em Selic faz a dívida aumentar de súbito.

Segundo o Relatório Mensal da Dívida do Tesouro Nacional, de junho de 2026, a dívida pública federal é de R$ 9,27 trilhões. Desse total, 49% está atrelada à Selic, 26% à inflação e 25% a outros indexadores.

Dívida pública federal de R$ 9,27 trilhões: 49% atrelada à Selic, 26% à inflação e 25% outros. Quando a inflação sobe, sobem os juros (Selic), sobem os títulos pós-fixados e a dívida sobe de uma vez. Fonte: Tesouro Nacional, Relatório Mensal da Dívida, jun/2026
Dívida pública federal de R$ 9,27 trilhões: 49% atrelada à Selic, 26% à inflação e 25% outros. Quando a inflação sobe, sobem os juros (Selic), sobem os títulos pós-fixados e a dívida sobe de uma vez. Fonte: Tesouro Nacional, Relatório Mensal da Dívida, jun/2026

Completar o Plano Real

A comparação que Monica faz é esta: em meados dos anos 90, o Brasil esgotou a capacidade de viver com hiperinflação e fez o Plano Real. Agora, esgotou a capacidade de viver com uma dívida toda indexada em juros pós-fixados. Daí a proposta: desindexar a dívida pública.

Por que isso não foi feito antes? Porque, do Plano Real até o fim do governo Fernando Henrique Cardoso, o Brasil viveu de crise em crise. Na linha do tempo do vídeo aparecem as crises do México, da Ásia, da Rússia, do Brasil, da Argentina e a da eleição. Não houve tempo de completar a desindexação.

Linha do tempo de 1994 a 2004, no governo FHC: crises do México, da Ásia, da Rússia, do Brasil, da Argentina e da eleição, e a desindexação que ficou incompleta
Linha do tempo de 1994 a 2004, no governo FHC: crises do México, da Ásia, da Rússia, do Brasil, da Argentina e da eleição, e a desindexação que ficou incompleta

"Vamos completar o Plano Real? Vamos terminar de fazer o que nós começamos a fazer lá atrás?", pergunta Monica. Para ela, não há proposta melhor, e a discussão macroeconômica no Brasil tem que ser essa: não só corte de gastos, não só a parte tributária. Ou o país dá continuidade ao Plano Real, ou fica como está, e piora.

Primeiro o diagnóstico

Monica não defende cada detalhe. "Não precisa ser exatamente nos termos colocados pelo André." Termos, prazos e formato podem ser discutidos. O tratamento vem depois. Primeiro, é preciso ter consenso sobre o diagnóstico.

Quem quiser ir a fundo deve ir às fontes: a live completa da Monica e o ensaio original do André. Como ela mesma termina: "O André propôs um debate. Então, vamos debater."

Transcrição do vídeo

A proposta do André Lara Resende, que ninguém entendeu, tá? Ninguém, ninguém. Nem o povo do mercado financeiro no Brasil, nem o povo, outros economistas de outras linhas ideológicas, ninguém entendeu. O texto do André, primeiramente, que ele tá falando sobre algo que a não ser que vocês tenham a história recente do Brasil muito, muito clara na cabeça de vocês, muitos de vocês não vão entender.

O Brasil é o único país no mundo que teve uma hiperinflação que durou 25 anos. Nós criamos uma série de mecanismos de defesa pra nos protegermos dessa situação de inflação muito alta por tanto tempo. Um dos grandes sucessos do Plano Real foi a correta identificação de um problema muito fundamental na economia brasileira, e esse problema era a chamada indexação. Indexação são todos os mecanismos que você cria na economia pra se defender da inflação.

A gente não desindexou a economia brasileira 100%. A gente desindexou parcialmente. Mas alguns mecanismos de indexação permaneceram. A gente conseguiu desindexar salário, a gente conseguiu desindexar preço e a gente conseguiu desindexar muitos contratos.

Mas, de um modo geral, nós não conseguimos desindexar ativos financeiros. E muitos desses ativos financeiros passaram a compor a nossa dívida pública. Então, a nossa dívida pública, quando a inflação sobe, ela não é corroída. Pelo contrário, ela aumenta.

Por quê? Porque se a inflação sobe, você aumenta a taxa de juros. Quando você aumenta a taxa de juros, tudo aquilo que está pós-fixado em Selic, isso faz com que a dívida aumente de súbito. O André está propondo o seguinte, do mesmo modo que, em meados dos anos 90, nós esgotamos a nossa capacidade de viver com hiperinflação e, portanto, fizemos o Plano Real, no momento, nós esgotamos a nossa capacidade de viver com essa dívida que está toda indexada em juros pós-fixados.

A proposta do André é, vamos desindexar a dívida pública brasileira. Então, do momento em que o Plano Real foi feito até o final do governo Fernando Henrique Cardoso, o Brasil viveu de crise em crise. E não houve tempo hábil para que se completasse a desindexação do Plano Real. O que o André está propondo é exatamente que se faça esse movimento agora.

Vamos completar o Plano Real? Vamos terminar de fazer o que nós começamos a fazer lá atrás? É isso a proposta do André, tá? Agora eu pergunto a vocês, vocês querem algo melhor do que isso?

Porque não tem. A discussão no Brasil tem que ser essa. A discussão macroeconômica no Brasil tem que ser essa. Não tem outra.

Primeiro, é preciso que todo mundo compreenda que ou a gente dá continuidade ao Plano Real que a gente começou nos anos 90, ou o país vai ficar nessa situação que está para pior. Não precisa ser exatamente nos termos colocados pelo André. As pessoas podem discutir os termos. O tratamento vem depois.

Primeiro, você precisa ter consenso a respeito do diagnóstico. O André propôs um debate. Então, vamos debater.

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